muito obrigada, não pensei que ninguém fosse ler! *-*
Era uma vez uma menina, e ela era feita de papel. Não havia nada de errado como isso: era perfeitamente normal ser feito de papel. Não era sempre conveniente, claro, mas não era anormal. Mas ser feita de papel tinha lá suas vantagens: papel é dobrável, logo, muito flexível. Papel pode ser moldado, colorido, escrito, apagado. Papel pode durar um bom tempo - ou tempo nenhum. E esse era o problema em ser feita de papel. Papel se rasga com muita facilidade. E se amassa também; e quando isso acontece, o papel nunca mais volta a ser do mesmo jeito. E papel não pode se molhar. Na verdade, esse era o problema principal: se molhar. A menina não podia se molhar, ou estaria destruída para sempre. Logo, ela não podia chorar - as lágrimas desmanchariam seu corpo frágil em apenas um suspiro. Sem choro e sem lágrimas, ela não podia amar, porque o amor sempre vem com tristeza. E a tristeza, quando é grande, transborda pelos olhos. Estava condenada a viver uma vida sem amores, sem promessas, sem beijos na chuva, sem olhar nos olhos e falar com o coração. E isso era triste. Mas não poderia ser, porque a tristeza traria lágrimas e as lágrimas a destruiriam. Ela se viu presa num enorme paradigma. Não podia amar porque amar é sofrer. Também não podia sofrer por não poder sofrer, porque o sofrimento seria ainda maior.
Mas um dia tudo mudou. Ela conheceu um menino, e ele também era feito de papel. E de repente não importava mais se ela iria sofrer, chorar, se molhar. Nada importava mais, então ela decidiu correr o risco. Jogar tudo para o alto. Se apaixonar. E no final, ela se molhou, e se desmanchou. E quer saber? Valeu a pena. Porque existe mais uma coisinha sobre o papel: quando molhado, ele se gruda com mais facilidade.
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